O BARCO BÊBADO


pedra



é uma pedra

mas a maquie aborígine

e a vista com tecidos

ósseos musculares epiteliais

e com lã e seda e cetim

deixe que ela ultrapasse

a forma do casulo e do caracol

mais que molde ou fantoche

dê para ela uma vida postiça

alfabetize-a andrógina lascívia

faça disso um exercício físico

contudo ela é seca, frígida, hostil

e se esquiva: sua origem mineral

quer ser definida pelo tempo

ela quer ser terra, areia

e alheia nada revela

ela se recompõe

é uma pedra



Escrito por nícollas às 22h21
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apetite

 

 

com uma arraia

tatuada em suas costas

(invadindo talvez

seus órgãos

e suas costelas)

com um olho mítico

tatuado acima de seu púbis

com seus olhos de gato

com sua epiderme deserto

com sua boca abismo

e absinto ela me diz

que fabricamos feras

sem saber que abortei

sua gravidez apocalipse

delicadamente usei faca e garfo

que atravessaram o parto

em seu ventre prato

com seus pêlos pubianos

com suas pálpebras

com seus poros espinhos

às gargalhadas

estéril ela me diz

que fabricamos feras

sem saber que abortei

sua gravidez apocalipse

e alimentaria tais feras

com suas cinzas

e lembranças

(mas agora

assexuadas

acéfalas

elas se fabricam

anômalas)

latejante ela me diz

que fabricamos feras

teia que consome

a aranha

 



Escrito por nícollas às 14h49
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RÉQUIEM

 

apocalipse

de um deus suicida

 

(sem fórmulas
ou dados

no seu último
ritual e milagre)

 

veios e ratos

teatro de espelhos

- um concerto -

 

com suas unhas

com seus cabelos

 

e ossos e peças

de relógios

 

para a orquestra

 

balé dissimulado

em suas digitais

 

ao som das cinzas

dos seus olhos

 

e nada mais

 

ágape de seus

suspiros

 

- lume e sonho -

 

marteladas

de fogueiras

perenes nos

seus neurônios

 



Escrito por Nícollas Ranieri às 18h12
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A ARTE POÉTICA DE PAUL VERLAINE


 

 

 

ARTE POÉTICA

 

A Charles Morice

 

 

Antes de tudo, a Música. Preza

Portanto o Ímpar. Só cabe usar

O que é mais vago e solúvel no ar,

Sem nada em si que pousa ou pesa.

 

Pesar palavras será preciso,

Mas com algum desdém pela pinça:

Nada melhor do que a canção cinza

Onde o Indeciso se une ao Preciso.

 

Uns belos olhos atrás do véu,

O lusco-fusco no meio-dia,

A turba azul de estrelas que estria

O outono agônico pelo céu!

 

Pois a Nuance é que leva a palma,

Nada de Cor, somente a nuance!

Nuance, só, que nos afiance

O sonho ao sonho e a flauta na alma!

 

Foge do Chiste, a Farpa mesquinha,

Frase de espírito, Riso alvar,

Que o olho do Azul faz lacrimejar,

Alho plebeu de baixa cozinha!

 

A eloqüência? Torce-lhe o pescoço!

E convêm empregar de uma vez

A rima com certa sensatez

Ou vamos todos parar no fosso!

 

Quem nos dirá dos males da rima!

Que surdo absurdo ou que negro louco

Forjou em jóia este toco oco

Que soa falso e vil sob a lima?

 

Música ainda, e eternamente!

Que teu verso seja o vôo alto

Que se desprende da alma no salto

Para outros céus e para outra mente.

 

Que teu verso seja a aventura

Esparsa ao árdego ar da manhã

Que enchem de aroma o timo e a hortelã...

E todo o resto é literatura.

 

(tradução: Augusto de Campos)



Escrito por Nícollas Ranieri às 23h32
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VERLAINE DE NOVO

 

 

CANÇÃO DO OUTONO

 

Os soluços graves

Dos violinos suaves

Do outono

Ferem a minh'alma

Num langor de calma

E sono.

 

Sufocado, em ânsia,

Ai! quando à distância

Soa a hora,

Meu peito magoado

Relembra o passado

E chora.

 

Daqui, dali, pelo

Vento em atropelo

Seguido,

Vou de porta em porta,

Como a folha morta

Batido...


(tradução: Alphonsus de Guimaraens)


O AMOR POR TERRA

 

O vento de outra noite pôs por terra o Amor

Que, num canto, o mais misterioso do parque,

Ria, brandindo malignamente seu arco,

E cuja face já fez muito sonhador!

 

O vento de outra noite o pôs por terra! O mármore

Rola, ao sopro da manhã, esparso. É triste

Ver esse pedestal, onde o nome do artista

Se lê, penosamente, sob sombras de árvores.

 

Oh! Como é triste ver de pé só o pedestal!

E vão e vêm melancólicas fantasias

Em meus sonhos onde uma tristeza sombria

Adivinha um porvir solitário e fatal.

 

Oh! Como é triste! E a ti certamente punge

Tal dolente quadro, apesar de teu frívolo

Olhar na borboleta, ouro e púrpura em vôo

Por sobre as ruínas que a alameda juncam.

 

(tradução: Paulo de Toledo)



Escrito por Nícollas Ranieri às 23h24
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+ PAUL VERLAINE

 

 

 

AS CONCHAS

 

Cada concha aqui incrustada

Na gruta onde a gente se ama,

Tem sua particularidade.

 

Uma é púrpura como a alma

Que tem do sangue a rubra cor

Quando em nosso peito se inflama;

 

Esta outra, imita teu langor

E palidez quando então, lassa,

Vês em mim só um zombador;

 

Esta aqui contrafaz a graça

De tua orelha, e por tua nuca

Rosada aquela outra se passa.

 

Uma, entre outras, porém, me turba.

 

(tradução: Paulo de Toledo)

 

 

SOBRE A RELVA

 

O abade divaga. – E tu, marquês,

Te atrapalhaste com tua peruca?

— O velho vinho de Chipre é menos

suave, Camargô, que tua nuca.

 

— Minha chama... – Dó, mi, sol, lá, si.

— Abade, tua negrura desvela-se!

— Que eu morra então, minhas damas, se

Eu não detiver aquela estrela!

 

— Queria ser um pequeno cão!

— Que cada um abrace agora a sua

pastora. — Meus Senhores, e então?

— Dó, mi, sol. — Oh! Boa noite, Lua!

 

(tradução: Paulo de Toledo)

 

 

PARA ARTHUR RIMBAUD


Mortal, anjo e demônio, ou melhor, Rimbaud,
Teu lugar no meu livro é o primeiro, como um prêmio;
Tu que um bobo escritor um dia esculhambou
Achando-te um debochado imberbe, um verme, boêmio.

As espirais de incenso e os acordes do alaúde,
Saúdam tua chegada ao templo da memória,
Onde teu nome esplêndido soará em glória,
Pois me amavas, se preciso, até a plenitude.

Serás para as mulheres, sempre, belo e forte,
De uma beleza assim, agreste e sedutora,
Tão cobiçada quanto desvanecedora!

E a história te erguerá triunfante da morte,
P'ra que, apesar de toda a lama, o mundo veja
Teus pés intactos sobre a cabeça da Inveja!

(tradução: José Machado Sobrinho)



Escrito por Nícollas Ranieri às 22h41
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DE ANA HATHERLY PARA PLATÃO


Art, The Timeless Medium


O poeta não quer duplicar o mundo
não quer fazer dele uma cópia:

Luta com a palavra
como Jacob lutou com o anjo
mas a escada que ele sobe
conduz a outras alturas
a outras planuras

É assim que o poeta
palavra por palavra
como pedra sobre pedra
constrói o edifício do poema

E a sua mão
robótico instrumento comandado
pela algébrica lógica do sentido oculto
produz
deve produzir
       o que o mundo não tem
       o que o mundo não diz
       o que o mundo não é


(Poema de Ana Hatherly)



Escrito por Nícollas Ranieri às 15h36
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FILME - BETTY BLUE

 

 

 

 

No sul da França, Zorg (Jean-Hughes Anglade) trabalha como zelador e dá manutenção para 500 bangalôs, além de tomar conta deles. Ele leva uma vida quieta e calma, escrevendo no tempo de folga. Um dia Betty (Béatrice Dalle) entra em sua vida. Ela é uma mulher jovem e bela, mas também dona de um temperamento imprevisível e instável. Após uma briga com o chefe de Zorg, ela põe fogo no bangalô onde moram. Betty e Zorg rumam para Paris, onde decidem começar um vida nova. Lá ambos vão trabalhar como garçons no restaurante de Eddy (Gérard Darmon), um amigo. Betty, que viu um manuscrito de Zorg, crê que ele seja um grande escritor e não aceita que ele sirva mesas ou faça biscates. Assim datilografa o texto e manda para todos os editores da cidade, mas vários recusam dizendo que aquilo é um lixo, o que deixa Betty inconformada. Quando morre a mãe de Eddy, que morava a 900 quilômetros de Paris, Betty, Zorg e Lisa (Consuelo De Havilland), a namorada de Zorg, também vão ao enterro. Após o funeral Eddy propõe, que Zorg e Betty fiquem no lugar, tomando conta de uma loja de pianos da sua falecida mãe. Os dois aceitam prontamente, pois adoram o lugar, mas nem tudo sai como o esperado em razão do temperamento difícil de Betty estar saindo do controle.



Escrito por Nícollas Ranieri às 17h20
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POEMA - CLÁUDIO DANIEL

 

BETTY BLUE (CINCO CENAS)

 

 

 

I

 

Piano, tarântula;

punho ferido

e o globo ocular

pelo desmanche

da memória.

 

 

II

 

(Ofélia descentrada,

banha-se em prata

de céu abortado.)

 

 

III

 

Paraíso clorofórmio:

inscrever o exílio

dos lábios na pele,

metalizada e muda.

 

 

IV

 

(Flashback)

 

Nereida meretriz

na gravata epitáfio;

tufos de barba

da morta madre,

como um presságio.

 

 

V

 

(Finale):

 

Ele travestiu-se

para a foice de Perséfone,

após domar a dor.

Repousa agora

o olho único da inquieta.

 

 

(Poema de Claudio Daniel, 2005)

Escrito por Nícollas Ranieri às 17h15
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VOLTA

 

Durante um bom tempo eu deixei de lado este meu blog (minha última postagem tem mais de 4 meses!), não o atualizei, enfim, o deixei abandonado. Agora volto a atualizá-lo, e pretendo fazer isso com mais freqüência. Agora este “barco bêbado” vai seguir uma viagem de viagens. Durante esse meu sumiço eu apareci no “Algaravária - Inédita Dissonância” com poemas e uma entrevista (http://algaravaria.blogspot.com/2006/06/algaravariaes-07-ncollas-ranieri.html) e na Revista Zunái de Poesia e Debates (http://www.revistazunai.com.br/poemas/nicollas_ranieri.htm). Fora do mundo virtual, apareci no terceiro número do jornal de poesia “O Casulo”, com o poema “Lontra” (que contou também com uma publicação no blog do Cláudio Daniel), para minha musa Angela Kina. Fiquem agora, abaixo, com belos poemas de Paul Celan.



Escrito por Nícollas Ranieri às 20h18
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PAUL CELAN

A AREIA DAS DUNAS

 

Verde-bolor é a casa do esquecimento.

Diante de cada portão flutuante azuleia o teu músico decapitado.

Bate no tambor feito de musgo e amargo pêlo púbico;

Com o dedo do pé ulcerado desenha a tua sobrancelha na areia.

Desenha-a maior do que era, e o vermelho dos teus lábios.

Tu enches aqui as urnas e alimentas o teu coração.

 

(tradução: João Barrento)

 

 

 

RETRATO DE UMA SOMBRA

 

Os teus olhos, rasto de luz dos meus passos;

a tua testa, lavrada pelo brilho dos punhais;

as tuas sobrancelhas, orla do caminho da tragédia;

as tuas pestanas, mensageiros de longas cartas;

os teus cabelos, corvos, corvos, corvos;

as tuas faces, campo de armas da madrugada;

os teus lábios, hóspedes tardios;

os teus ombros, estátua do esquecimento;

os teus seios, amigos das minhas serpentes;

os teus braços, álamos à porta do castelo;

as tuas mãos, tábuas de juras mortas;

as tuas ancas, pão e esperança;

o teu sexo, lei do fogo na floresta;

as tuas coxas, asas no abismo;

os teus joelhos, máscaras da tua altivez;

os teus pés, campo de batalha dos pensamentos;

as tuas solas, criptas em chamas;

as tuas pegadas, olho da nossa despedida.

 

(tradução: João Barrento)



Escrito por Nícollas Ranieri às 20h17
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+ PAUL CELAN

 

ERRÁTICO

 

As noites se fixam

sob teu olho. As sílabas re-

colhidas pelos lábios — belo,

silencioso círculo —

ajudam a estrela rastejante

em seu centro. A pedra,

um dia perto da fronte, abre-se aqui:

ante todos os

espalhados

sóis, alma,

estavas, no éter.

 

(tradução: Claudia Cavalcanti)

 

 

 

QUANDO ME ABANDONEI EM TI,

eras pensamento,

 

algo

murmura entre nós dois:

do mundo a primeira

das últimas

asas,

 

em mim cresce

a pele sobre

tempestuosa

boca, tu não chegas até ti.

 

(tradução: Claudia Cavalcanti)

Escrito por Nícollas Ranieri às 20h16
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EXALTAÇÕES

 

Ela que teve mais da metade de seu corpo queimado

escapou da morte

Observando

que há cinco figuras sólidas, o Mestre

(ou como relata Aetius, no Placita)

concluiu que

a Esfera do Universo ergue-se

do dodecaedro

                     

de onde Alexandre

aparecendo em um sonho para Antiochus

mostrou-lhe

E no dia seguinte, o inimigo (os gálatas)

escapou diante disso,

antes da canção, isto é

 

 

Charles Olson

Tradução de  Adriana Zapparoli



Escrito por Nícollas Pessoa às 18h41
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AS FORMAS DO AMOR

 

Estacionados no mato,
A noite toda
Tantos anos atrás
Vimos
Uma lagoa ao lado
Quando a lua surgiu.
Me lembro

Saindo daquele carro velho
Juntos. Me lembro
De pé sobre a relva branca
Ao lado do carro. Tateamos
Nosso caminho juntos
Morro abaixo no esplendor
Incrível da luz

E então pensando
Se se tratava de lagoa ou
Névoa
O que vimos, nossas cabeças
Insinuando-se sob estrelas Caminhamos
Para onde teríamos molhado os  pés
Fosse aquilo água

 

 

George Oppen
Tradução de Ruy Vasconcelos



Escrito por Nícollas Pessoa às 18h35
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LEVIATÃ

 

A verdade é também sua busca:

Como a felicidade, e não prevalecerá.

 

Mesmo o verso começa a erodir

No ácido. Busca, busca;

 

Vento move brando,

Em redemunho, muito frio.

 

Que devemos dizer?

Em fala comum -

 

Ora precisamos falar. Não estou mais seguro das palavras,

A mola do mundo. O que é inexplicável,

 

A “preponderância dos objetos”. O céu esplende

Diariamente com essa predominância

 

E nos tornamos o presente.

 

Ora precisamos falar. Medo

É medo. Mas nos abandonamos um ao outro.

 

 

George Oppen

Tradução de Ruy Vasconcelos



Escrito por Nícollas Pessoa às 18h28
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